quarta-feira, 4 de maio de 2011

Depoimento da Dançarina Shaide Halim

A dança do ventre é quase que um estereótipo do ideal de feminino. A primeira imagem que vem à mente quando um leigo nesse assunto pensa em dança do ventre é um harém, com sheiks, sultões, mulheres lindas com olhares sedutores e trajes brilhosos, envolvidas por véus esvoaçantes e sedosos, música lânguida, e seus corpos reproduzindo movimentos sinuosos que lembram os movimentos de serpentes! É a visão do paraíso para os machos de plantão, não é não?

Já no mercado profissional da dança oriental, a feminilidade da bailarina é explorada de uma forma totalmente adversa. A verdadeira dançarina é aquela que, ainda envolta em véus esvoaçantes, usa a roupa da última moda, que pode fugir do padrão “ternurinha” e ser bem colada ao corpo, às vezes, com a saia curtinha, num design ultra moderno que é a roupa do momento nos shows do Egito. Ela obviamente se comporta como uma deusa em cena, mas não aquela deusa lânguida, de olhar sensualmente doce dos contos das mil e uma noites. Ela é praticamente uma tigresa, tal qual aquelas belas modelos da capa da Sexy. Colocou silicones para valorizar a comissão de frente, tem a barriga devidamente definida por horas de malhação pesada. Seus cabelos são lindamente escovados, e sua postura, enquanto dança, é a de um ser não-humano. Uma deusa, tigresa, sexy, linda, poderosa..., e, obviamente, inatingível.

Não se esquecendo, claro, que seus movimentos são milimetricamente estudados, cronometrados dentro da música, e a agilidade de seus quadris é algo absurdamente definido e detalhado. E quantos giros... E quantas poses estratégicas na coreografia para os clicks dos fotógrafos. E a música lânguida? Que nada! Isso é coisa do passado! Bom mesmo é aquela música ultramoderna da Nancy Ajram, ou aquele solo de derbake complexo que dá pra fazer mil floreados de deixar o público de boca aberta com tanta técnica.

Mas quem foi que disse que para sermos femininas temos que ser delicadas como nos contos árabes? Ou femme fatales como dita o mercado belly dance? Não existe uma outra possibilidade? O mundo dos sentidos não é tão amplo que podemos experimentar a feminilidade em outras formas mais sutis? Ou mesmo nada sutis, pouco importa... mas que seja fora dos padrões que tentam nos impor, de tempos em tempos....

Sobre o feminino na dança do ventre, posso dizer que não faço pesquisas sobre esse assunto, nem sinceramente nunca parei para pensar nisso com tanta profundidade. Talvez porque a minha feminilidade seja muito bem resolvida na minha cabecinha, o que me faz ignorar tal preocupação e imaginar que não seja realmente necessário me enquadrar num estereótipo pré-formatado para ser ou não feminina enquanto estou em cena.

Saindo dos estereótipos e falando sobre dança: eu comecei com o ballet, fui pro jazz, para a dança afro, dança indiana, flamenco, ou seja, todas essas danças são compartilhadas por homens e mulheres. Quando caí na dança do ventre, também já estava envolvida até o último fio de cabelo com o tribal (que conheci antes mesmo da dança do ventre), que também aceita de bom grado meninos e meninas.

Mas, mesmo sem estudar esse assunto de feminilidade na dança do ventre com profundidade, e levando em consideração que eu tenho uma visão de dança, em geral, que não cabe nos parâmetros que a dança do ventre pede, já que vejo o ato de dançar como algo universal, que não escolhe sexo, raça, idade, biotipo (quem faz essas escolhas ou cria alguns padrões somos nós, pois, mesmo as origens da dança do ventre estando diretamente ligadas à mulher.

Vou usar a dança flamenca e a dança do ventre como referências. Ambas são danças consideradas extremamente sensuais, mas cada uma ao seu modo, obviamente. Então, vou dizer como sinto a minha feminilidade em cada uma delas.

A dança do ventre para mim, hoje, é bastante diferente das minhas primeiras experiências nessa área. Tive a influência da mudança de professoras, do fato de eu ter me tornado professora e entrado em contato com outras maneiras de encarar e representar essa feminilidade na dança, também de ouvir muitos relatos de outras amigas do meio etc.

Quando comecei eu sentia a dança do ventre, em meu conhecimento de iniciante, como algo delicado, etéreo, uma ninfa no bosque. Eu era incentivada a realizar os movimentos de forma suave, delicada, pequenos, sem esforço... Bom, foi uma experiência que tive com quase todas as minhas professoras, da primeira à última, com exceção de uma. Essa professora já me pegou semi pronta, pois já estudava há alguns muitos anos quando cheguei às suas aulas. Mas, mesmo assim, ela virou minha cabecinha do avesso.

Tudo aquilo que ouvi antes e depois dela, de manter a leveza, a suavidade e a delicadeza, etc, comuns na técnica egípcia, depois dela já não representavam mais nada pra mim. Porque ela, em uma única frase fazia uma síntese de tudo o que eu precisava ouvir: seja você mesma enquanto dança. Pois é, eu, com esse bundão, sofria horrores para controlá-lo e fazer as coisas com a delicadeza de quem tem o corpo da Sininho do Peter Pan. Para piorar minha situação, o estilo tribal trabalha com movimentos grandes e fortes, onde a feminilidade é mais próxima ao Flamenco, com força, vitalidade, energia, liberação.

Então, mesmo enlouquecendo minha professora de dança do ventre seguinte, lá estava eu com meu quadril enorme, batendo pra lá e pra cá e ouvindo ela dizer: “internalize o movimento... faça pequenininho!!!” Mas o pequenininho era coisa do passado pra mim, eu só consegui me soltar na dança do ventre de corpo e alma quando me deixei ser eu mesma, com a bunda e a força do tamanho que Deus me deu!

Bom, pode parecer que não tem nada com nada com o assunto da gente, não é? Mas tem. Foi a partir daí que eu descobri que a minha feminilidade é minha, e vai ser expressa de uma mesma maneira em qualquer dança que eu dançar. Tentar ser mais ou menos feminina, porque há na dança um caráter x ou y, eu particularmente não vou conseguir. Porque no momento que piso num palco, quem está ali é a Shaide lá de dentro, que vai passar pro quadril, ou pro taconeo do flamenco, o que eu sou, o que eu sinto, o que a música me diz. É como se eu entrasse em transe, e minha vontade racional fizesse pouca diferença. Então, minha feminilidade vem à tona de maneira natural, e não numa tentativa forçada de teatralizar emoções, tentando se adequar aos padrões de “ser delicada", “ser fatal” ou “estar dentro do que dita a moda belly dance”.

Uma vez, discutindo com amigas sobre a questão da sensualidade na dança do ventre, eu disse que prefiro não pensar nisso enquanto danço. Não usar a sensualidade de forma consciente, justamente para não cair no padrão femme fatale que algumas bailarinas adotam. Até porque, se eu sou sensual dançando, é algo que acontece de forma natural e espontânea, e não algo maquinado, preparado, estudado. Então, alguém disse que eu não era nenhuma planta dançando, e que tinha meu lado sensual e que não adianta querer negar, etc.

Mas eu não nego, não!!! Atire a primeira pedra quem, em algum momento, em alguma música, não se deixou levar. Mas é algo que acontece quando dançamos com alma, é algo tão nosso, que por mais que eu estude maneiras de querer aflorar minha sensualidade, ou minha feminilidade, ou minha delicadeza, ou minha força etc., isso só vai acontecer na hora certa, com o amadurecimento, e, às vezes, sem mesmo me dar conta disso.
Podemos buscar formas de conduzir nosso caminho ao amadurecimento artístico, mas ele acontece de dentro para fora, e não da forma contrária.

Quando pensarmos sobre a relação da feminilidade na dança do ventre ou no flamenco, não devemos imaginar algo que a dança traz, e, sim, algo que nós levamos à dança, cada uma do seu jeito. Quantas e quantas vezes já não assistimos uma bailarina dançando e pensamos: nossa, eu faria isso de outro jeito, porque a música que ela dançou me passa algo muito diferente do que o que ela mostrou. Bom, eu pelo menos costumo assistir alguém dançando e prestar atenção na música justamente para reconhecer como ela "sentiu" aquela música e, também pensar em como eu sentiria se estivesse no lugar dela.

Ouvir a música é dar o primeiro passo para dançar, não é? E pensando assim, é fácil descobrir porque a dança flamenca nos faz resgatar nossa dança animal: a música já traz em si os elementos que vão acordar nosso bicho e fazê-lo querer dançar. A música flamenca tem uma força, um sentimento, uma dramaticidade ímpar e, a partir do momento em que ouvimos e decodificamos o que a música nos diz, vamos trabalhar nossa dança, nossa alma, forte e vigorosa, mas extremamente sensual e feminina, não é mesmo?

Já a música oriental pode nos remeter a tantas coisas ao mesmo tempo... a leveza e a força estão presentes numa mesma música, às vezes num mesmo momento, com a sobreposição de uma batida energética com uma melodia suave. Então, para quem não tem ou não quer descobrir sua sensibilidade, é mais fácil criar um estereótipo de dança sensual, ou uma regra de dançar como uma ninfa no bosque. Ou, a terceira opção, a mais moderna, a de usar todos os seus recursos técnicos e estéticos, esquecendo-se de colocar sua emoção na dança. É mais fácil rotular do que parar para ouvir e sentir, não é mesmo?

Felizmente, eu que por algum tempo andei me decepcionando com a dança do ventre, hoje tenho visto algumas coisas muito legais, de gente que está deixando de querer ser a ninfa-sensual-deusa-tigresa-odalica-dentro-dos-padrões e sendo apenas "ela mesma e sua dança". Acho que a partir do momento em que as bailarinas passarem a trabalhar a técnica de mãos dadas com os "ouvidos", vamos ver muito "animal-dança do ventre" saindo do casulo, viu?

Bom, e como o assunto é feminilidade, eu sou obrigada a dar meu pitaco em outro assunto muito polêmico e até chato. Homem pode dançar dança do ventre ou não pode? Se um homem consegue dançar dança do ventre (mesmo as origens dessa dança estando ligadas à mulher), é porque a dança é um ato universal, possível de ser realizada por qualquer pessoa, de qualquer sexo, raça, biotipo. Eu fui "criada" em danças mistas, talvez por isso não me adeqüei ao pensamento de muitas pessoas do meio da dança do ventre, de que esta é só para mulheres. Entendo o surgimento da dança, sua relação estreita com o corpo feminino, rituais religiosos e afins, mas para mim a dança sempre será considerada como algo livre, que parte de cada um praticá-la ou não. Se a pessoa vai dançar bem ou não, aí é outra história. Se vai ser profissional ou fazer por puro hobby, é um outro contexto. Mas que ninguém pode impedir ninguém de dançar o que bem quiser e entender...ah, isso não pode mesmo! E já aviso logo que eu não quero que ninguém concorde comigo, viu? Só também não quero ter que concordar com certos convencionalismos que não se aplicam àquilo que eu defendo como forma artística. Mas isso é um outro assunto. Eu só quis deixar claro o porque de não ter interesse em estudar a feminilidade na dança: porque eu não me sinto mulher ou homem, gorda ou magra, bonita ou feia quando danço. Eu me sinto um ser dançante, sem sexo, sem raça, amorfo. Enquanto estou dançando, eu apenas me imagino como sentimento.

Voltando ao meu bundão: ele é original de fábrica, daí fica difícil, num corpão, tentar reproduzir movimentos muitos delicados. E isso eu não aplico só à dança do ventre. No ballet, eu adorava fazer aulas com os meninos, grandes saltos, movimentos largos, e apesar de cumprir meu papel como moça, eu não gostava de muitas coisas que são resguardadas à parte feminina desta dança. É uma questão de gosto. Mas, continuei no ballet mesmo assim, porque a base desta dança é perfeita para tudo o mais que se vier a fazer depois. E vale a pena apertar os pezinhos naquelas sapatilhas de pontas torturantes.

Então, o que aquela minha professora dizia, é para sermos sempre aquilo que queremos. Independente do tamanho do bundão, ser delicada ou ser dinâmica e vigorosa é algo único e pessoal de cada dançarina. Ela mesma era uma senhora bem cheinha, mas seus movimentos eram extremamente delicados e suaves. Essa foi a escolha dela. Se é que podemos escolher... Se é que isso já não está dentro da gente e simplesmente aparece enquanto dançamos, não é mesmo? Eu particularmente não sou uma pessoa de movimentos delicados, quem me conhece sabe que sou irriquieta, expansiva... E esses elementos da minha personalidade acabam chegando também à dança. E não é à toa que me identifico com coisas do gênero: tribal, jazz dance, dança afro etc. Independente disso, estudei técnica de dança do ventre egípcia: suave, delicada, de movimentos pequetitinhos... Mas, obviamente, adequo às minhas escolhas e à minha personalidade na dança. Pra tudo se dá um jeitinho!

Publicado originalmente em  http://beladanca.blogspot.com
Proprietária do Estúdio Beladança. Bailarina, coreógrafa e diretora artística das cias: Cia Halim Estilo Tribal Brasileiro (a primeira trupe tribal brasileira, desenvolvendo essa modalidade no Brasil desde 2001), Cia Lotus Nrtya Naya de dança indiana moderna e Cia Ventre Brasil Beladança (que trabalha a mistura da dança oriental com ritmos e movimentos do Brasil).

Meninas Ááiune na EMEF Odila Maia Rocha Brito

A Dança do Ventre no Terceiro Setor

As artes são sempre citadas como uma forma de inclusão social. Não raro, o balé, a dança contemporânea e, principalmente, a dança de rua figuram entre as principais modalidades exploradas por organizações não governamentais, que têm na arte e na cultura suas principais ferramentas de trabalho. O glamour, o luxo e o brilho muitas vezes espalhados aos quatro cantos por praticantes e escolas de Dança do Ventre acabam tirando do campo de visão de muitos profissionais e possíveis praticantes as possibilidades terapêuticas e principalmente sociais que a dança traz.

Mulheres em condições “normais” já passam por tratamentos diferenciados. Não cabem aqui discursos hipócritas que falam sobre um mundo que vive sob direitos iguais. Mulheres continuam ganhando menos, tendo menos posições em cargos diretivos e, em alguns casos, estudando menos anos na escola. Em camadas bastante privilegiadas da população, a diferença é pequena. Quanto menor o privilégio maior essa disparidade e, com isso, maiores as questões emocionais com as quais são obrigadas a lidar.

A prática da Dança do Ventre reconstrói essa auto-estima ferida pelo tempo e pelas dificuldades da vida. Ao se olhar no espelho ao longo dos minutos de aula é visível no olhar de cada uma a descoberta diária em cada nova ondulação, cada curva e cada batida que seu corpo pode mostrar. É pelo corpo que essas mulheres exprimem, de forma silenciosa, o que uma espécie de mordaça social calou. Seja sua sensualidade, seu espírito de romantismo, seu lado de “moleca brejeira” ou mesmo a sua diva interior. As batidas agressivas viram formas de exprimir seus retornos às adversidades da vida e, aos poucos, o equilíbrio vai voltando a reinar. Mente sã, finalmente, encontra-se com o corpo são.

Os espaços do terceiro setor, que atendem a comunidades carentes, muitas vezes são povoados por mulheres vítimas de violências. Seja violência moral ou física, em ambiente doméstico ou de trabalho, o fato é que a maioria passa por abusos e condições de difícil sobrevivência sadia. Nesses espaços livres, as marcas expostas de seus corpos e de suas almas passam despercebidas por elas mesmas na beleza da sinuosidade dos movimentos, nos redondos de quadris e flutuações de braços. É o momento de esquecer a dor e entender que aquilo que elas vêem no espelho e sentem em seus corações as pertencem e são de seu total domínio.

Nesse formato, elas reagem de forma mais afirmativa como donas de seus corpos, suas mentes e seus destinos. As experiências com a auto-observação e a consciência corporal levam a uma autodeterminação física e intelectual que contribuem para o aumento da consciência de seu papel social como mulher, profissional e, principalmente, como indivíduo atuante em suas comunidades e na sociedade como um todo.

Texto de Bárbara Ladeia
Dançarina e professora de Dança do Ventre da AEB (Associação Evangélica Beneficente)
barbaraladeia@gmail.com

A História da Dança do Ventre no Brasil

A história da Dança do Ventre no Brasil ainda é recente, datando de aproximadamente uns cinqüenta anos para cá. E pode-se dizer que provavelmente ela teve seu início quando os primeiros árabes aqui chegaram.
Os primeiros imigrantes árabes vieram da Síria e do Líbano por volta de 1880, e se concentraram principalmente no estado de São Paulo, mais especificamente na capital.
A bailarina Patrícia Bencardini em seu livro “Dança do Ventre – Ciência e Arte” nos diz que: “A partir dos anos 50, uma grande população muçulmana entrou no Brasil, vindos de diferentes regiões do Oriente Médio. E, na década de setenta do século XX, novos imigrantes libaneses vieram para o Brasil fugindo da guerra civil, quando muitos encontraram parentes distantes que vieram no começo do século” (p. 68-9).
Provavelmente este foi o caso da bailarina palestina SHAHRAZAD Shahid Sharkey que aqui chegou por volta de 1957. Muitas bailarinas acreditam que ela foi a pioneira desta dança no Brasil. Seu nome de nascimento é Madeleine Iskandarian.
Shahrazad foi cabeleireira por 18 anos e passou a dedicar-se à Dança do Ventre a partir do final da década de 70 no Brasil, embora já dançasse profissionalmente desde os sete anos em diversos países árabes, como conta em seu livro. No Brasil, se apresentou em diversos restaurantes árabes, teatros e programas de televisão, além de ter concedido várias entrevistas.
Publicou em 1998 o livro intitulado “Resgatando a Feminilidade – expressão e consciência corporal pela dança do ventre”, além de alguns vídeos com a didática que desenvolveu para o ensino de dança, com aproximadamente três mil exercícios criados por ela. A última edição de seu livro foi lançada na 17º Bienal do Livro em São Paulo.
Sua dedicação à Dança do Ventre, além de incluir a formação de grandes bailarinas e professoras, incluiu, ainda, sempre uma luta pela valorização da dança e nunca por sua vulgarização.
No entanto, sabe-se que Zuleika Pinho foi a primeira bailarina a realizar uma apresentação de Dança do Ventre no Brasil, em um clube árabe chamado Homes, no ano de 1954. Nesta época Zuleika tinha apenas 14 anos: "Me perguntaram se poderia apresentar uma dança oriental, não tinha idéia do que era, mas aceitei", conta Zuleika. Nesta época, ela passou a se apresentar em vários restaurantes e programas de televisão, assim como aparecer em muitos jornais da época.
Mesmo assim, na década de 80, segundo a bailarina MÁLIKA, “a dança do ventre era muito pouco conhecida e difundida no Brasil”. Era difícil obter materiais para estudos, aulas e apresentações como discos, CDs, vídeos e roupas. A literatura também era escassa, pois segundo ela, “no Brasil não havia publicações sobre o assunto e escassas eram as publicações em inglês e francês”.
Para a bailarina, esta situação passou a se modificar a partir da década de 90 quando, no Brasil, começaram a surgir publicações sobre a Dança do Ventre em jornais e revistas, com o surgimento de eventos, concursos e desfiles, além de programas de televisão, rádio e internet tratando do assunto. Essa procura pela dança acentuou-se ainda mais após a exibição da novela “O Clone” pela Rede Globo de televisão.
Muitos profissionais dizem que não havia música árabe no Brasil, porque aqui não se produzia e não se vendia também. Os discos de vinil na época tinham que ser comprados fora do país.
De acordo com Jorge Sabongi, proprietário da Casa de Chá Khan el Khalili, no início dos anos 70 havia alguns poucos restaurantes árabes como Bier Maza, Porta Aberta e Semíramis, que atualmente não existem mais. Eles contavam com algumas apresentações de Dança do Ventre e alguns músicos árabes.
Um pouco depois, na década de 80, surgiram as primeiras bailarinas de Dança do Ventre brasileiras, que podem ser consideradas como a primeira geração de bailarinas no Brasil. Foram elas: Shahrazad, Samira, Rita, Selma, Mileidy e Zeina.
O primeiro vídeo didático de Dança do Ventre brasileiro foi lançado em 1993, pela Casa de Chá egípcia Khan el Khalili, tendo como professora a então já bailarina Lulu Sabongi.
Desde então, muitos outros vídeos, e mais recentemente DVDs, têm sido produzidos no Brasil, tanto didáticos quanto de shows. Também muitos DVDs internacionais têm sido comercializados aqui, já que a procura tem sido cada vez maior.
A casa de chá egípcia Khan el Khalili foi inaugurada em 1982 por Jorge Sabongi e antes de completar dois anos passou a contar com apresentações de Dança do Ventre (por sugestão de uma casal de egípcios) uma vez a cada três meses.
Até que apareceu Lulu Sabongi, que, após iniciar os estudos na Dança do Ventre, começou a se apresentar na Casa de Chá, cada vez com maior freqüência e com um público cada vez maior.
Hoje a Khan el Khalili tem mais de vinte e cinco anos de existência. Além de contar com casa de chá, conta ainda com apresentações diárias de Dança do Ventre, oferece aulas, shows, produz Cds e DVDs, exportando inclusive para outros países.
Os primeiros Cds produzidos no Brasil vieram da família de músicos Mouzayek, liderada pelo cantor Tony Mouzayek. A coleção de Cds intitulada “Belly Dance Orient” encontra-se atualmente em seu 59º volume.
A família Mouzayek veio da Síria na década de 70 e aqui se instalou contribuindo para a divulgação da cultura árabe, principalmente da Dança do Ventre no Brasil.
Além de músicos, são proprietários de uma loja no centro de São Paulo, a Casa Árabe, que existe há mais de quarenta anos e vende diversos artigos para Dança do Ventre, como CDs, DVDs, roupas, acessórios, livros e instrumentos musicais.
Um importante e grande evento de Dança do Ventre que ocorre anualmente no país é o “Mercado Persa”. Ele ocorre na cidade de São Paulo desde 1995 e é caracterizado por promover muitas apresentações de dança oriental (amadoras e profissionais) e por vender muitos artigos especializados às suas praticantes.
O número de participantes deste evento vem aumentando desde seu surgimento, tanto que já conta com dois palcos e não mais com um como no início. O que significa que durante doze horas, das 10 às 22, acontecem apresentações ininterruptas de Dança Árabe em dois palcos simultaneamente. Este evento foi criado pela bailarina Samira Samia e é dirigido por sua filha, a também bailarina, Shalimar Mattar. Foram, ainda, elas que criaram o primeiro jornal sobre o assunto no Brasil “Oriente Encanto e Magia”, com publicação mensal, existente desde o ano de 1995. Sua distribuição é gratuita e consta de matérias, artigos, fotos, divulgação de eventos e de profissionais da área.
O primeiro livro sobre o assunto, “Dança do Ventre – uma arte milenar”,  foi escrito pela bailarina e professora Málika, em 1998, pela Editora Moderna. Foi lançado na Bienal do mesmo ano, mas atualmente se encontra esgotado.De acordo com a autora, o livro surgiu “de um caderno de estudos, onde costumava anotar passos, dúvidas, temas a serem pesquisados e/ou aprofundados, curiosidades etc”. Hoje em dia não nos deparamos mais com muitos dos problemas que havia antes, como a falta de Cds, vídeos, figurinos, professoras, bailarinas na área de Dança do Ventre. Muito pelo contrário, há uma abundância grande de material para estudos e pesquisas, principalmente com a internet. Nela há textos, fotos, divulgações de eventos, bem como vídeos.
Há uma estimativa de que o Brasil é, junto com os Estados Unidos, um dos países ocidentais com o maior número de praticantes do mundo. De fato, a mulher brasileira se identifica com as características da Dança do Ventre e, talvez, por esse motivo ela faça tanto sucesso aqui.
Atualmente no Brasil as aulas de Dança do Ventre são oferecidas em diferentes espaços como em academias de ginástica, clubes, escolas especializadas, escolas de dança, assim como em espaços esotéricos e centros culturais.
Muitas revistas e livros já foram escritos sobre o assunto, não se esquecendo de que a divulgação maior fica por conta da internet.
Apesar de pequena ainda, há uma participação da Dança do Ventre no meio acadêmico, como algumas publicações de monografias, artigos científicos e dissertações de mestrado.
Além disso, nosso país conta, ainda com muitos eventos anuais que prestigiam a Dança do Ventre, assim como workshops nacionais e internacionais realizados, principalmente, na cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Fonte:
http://www.centraldancadoventre.com.br/a-danca-do-ventre/a-danca-do-ventre-historia

Um pouco mais sobre a História da Dança do Ventre...

Originalmente o nome da Dança do Ventre é Racks el Sharqi, cujo significado do árabe é Dança do Leste. Posteriormente este nome foi traduzido pelos franceses como Danse du Ventre e pelos norte-americanos como Belly Dance.  Chegou ao Brasil, portanto, como Dança do Ventre, ou Dança Oriental Árabe ou ainda Dança do Leste que seria a forma mais correta de chamá-la, de acordo com a tradução do árabe para o português.
Segundo SHAHRAZAD, a pioneira da Dança do Ventre no Brasil, Dança do Leste foi o nome dado a esta dança porque “significa onde o sol nasce, de onde a mulher recebe as energias e o poder do Sol”.
A Dança do Ventre é uma dança de origem oriental, cujo surgimento exato em termos de localização histórica e geográfica nos é desconhecida. Ou seja, não se sabe ao certo onde e nem quando a Dança do Ventre se originou.
A literatura histórica sobre este assunto é escassa e duvidosa, e os poucos autores que se arriscaram a escrever sobre isso concordam. Há poucos documentos e registros que atestam o passado histórico da Dança do Ventre. Devido à dificuldade de encontrar informações confiáveis, surgem diversas interpretações, teorias e hipóteses. A mais aceita delas diz que a Dança do Ventre surgiu no Antigo Egito, em rituais, cultos religiosos, onde as mulheres dançavam em reverência a deusas.  Com movimentos ondulatórios e batidos de quadril, as mulheres reverenciavam a fertilidade, celebravam a vida. Ou seja, tratava-se de uma dança ritualística, em caráter religioso, sem apresentações em público. Essas mulheres reverenciavam as deusas que acreditavam ser as responsáveis pela vida da terra, pela vida gerada no ventre da mulher, e pelos ciclos da natureza. Há quem diga que ao dançarem as mulheres também se preparavam para ser mães, já que a movimentação da Dança do Ventre ajudava a fortalecer a região pélvica, facilitando o parto. Dizem que quando os árabes invadiram o Egito, eles se apropriaram da Dança do Ventre e a disseminaram para o resto do mundo. Esse caráter religioso da Dança do Ventre, a qual era realizada em rituais sagrados em homenagens a deusas, modificou-se. Raramente a Dança do Ventre hoje é praticada como um ritual religioso, mesmo que muitos ainda a vejam como uma prática sagrada. A característica mais evidente hoje da Dança do Ventre é cultural, artística e profissional. Cultural porque ela faz parte da tradição, do patrimônio cultural de muitos países, principalmente árabes, nos quais a dança é transmitida de uma geração a outra. Neste sentido, poderíamos dizer que a Dança do Ventre tem o mesmo significado para os países árabes que o tango tem para a Argentina, o flamenco para a Espanha e o samba para o Brasil. São danças que compõem o patrimônio cultural de cada país. A característica artística e profissional da Dança do Ventre se manifesta nas pessoas que a estudam, treinam, ensinam, se apresentam. Ou seja, quando a Dança do Ventre se transforma na profissão de muitas pessoas. Isso acontece atualmente tanto nos países árabes quanto nos países ocidentais, onde há bailarinas e professoras de Dança do Ventre. No passado histórico supõe-se que a Dança do Ventre tivesse caráter informal de aprendizagem. Ou seja, não havia escolas que ensinavam a dançar, fato que é muito diferente do que ocorre hoje. Tampouco havia preocupações quanto à sua técnica, quanto à sua forma de realização. Era basicamente uma dança de caráter sagrado praticada somente por mulheres, nas quais umas aprendiam com as outras informalmente, não necessitando de aulas para tal. Muitos anos após seu provável surgimento, a Dança do Ventre passou por muitas e diversas influências culturais de diferentes épocas e países, e sofreu as alterações de países ocidentais onde ela chegou.  Por exemplo, podemos dizer que as suas características de aprendizagem e de realização modificaram-se bastante. Atualmente, principalmente no ocidente quando uma mulher quer aprender a Dança do Ventre, ela geralmente faz aulas, estuda, ensaia, treina. O que mostra sua característica de dança artística.
Provavelmente em sua origem a Dança do Ventre não era coreografada. Ela era uma dança improvisada, que surgia de acordo com os sentimentos, criatividade e reverência no momento de sua execução. Hoje, como sabemos, ao assistir ou elaborar uma apresentação, ela pode ser coreografada ou improvisada. Isso depende da escolha da bailarina, da adequação ao local ou tipo de evento da apresentação.
A partir do final do século XX, tem-se observado um crescente interesse do Ocidente pela Dança do Ventre, ou seja, em países americanos como o Brasil e EUA, e em países europeus como a Espanha, Portugal e França, entre outros. Este interesse se deve talvez ao fato de a Dança do Ventre ser muito diferente das danças praticadas no Ocidente, exigindo uma movimentação e uma estética diferentes das outras danças, assim como as características musicais.  De acordo com a bailarina e professora HAYAT EL HELWA “A dança foi vista na Europa pela primeira vez na Mostra Mundial de Paris em 1889, onde foram trazidos diversos artistas de rua, algerianos, para se apresentarem na mostra”. Nos países árabes atualmente as apresentações de Dança do Ventre ocorrem em diversos lugares como casas de shows, teatros e nihgt clubs (que geralmente ficam em hotéis cinco estrelas). Inclusive muitas bailarinas brasileiras quando vão trabalhar nos países árabes como o Egito, é nestes hotéis cinco estrelas que elas se apresentam. Sobre as apresentações, ainda é importante dizer que elas ocorrem geralmente no palco destes lugares, e quase sempre com uma banda composta de muitos músicos. Geralmente cada bailarina tem sua própria banda para acompanhá-la.


Fonte:
http://www.centraldancadoventre.com.br/a-danca-do-ventre/a-danca-do-ventre-historia

domingo, 1 de maio de 2011

Dança do Ventre - Sete Véus

Dança do Ventre Arte Terapia

A Dança do Ventre Terapêutica segue a linha Egípcia, que remete ao Antigo Egito onde as sacerdotisas do Templo do Sol realizavam rituais com cânticos e várias danças em homenagem ao Deus Sol (Rá como era conhecido pelos egípcios). Envolvia uma filosofia de amor e paz. A Dançaa do Ventre era realizada em homenagem ao Deus Sol; à ele eram oferecidas flores de lotus, incenso, essências, água e frutas. Somente as sacerdotisas dançavam, e, neste momento, não podiam ter o corpo tocado em sinal de respeito, pois buscavam uma integração com o Universo, sentindo Deus em toda sua totalidade e também em todos os seres vivos. Por isso realizavam movimentos que representavam os animais em seus aspectos divinos, bem como os quatro elementos da natureza e suas divindades (Terra, Água, Fogo e Ar). Sentindo a harmonia cósmica, alcançavam um estado de êxtase profundo.
Os ensinamentos da Dança do Ventre Terapêutica tem como base a visão do nosso corpo em quatro partes distintas: Terra, Água, Ar e o Fogo e nos 7 chakras (centros de força por onde circulam a energia vital). Existem movimentos da dança específicos para equilibrar cada um dos 7 chakras. Seguindo esta divisão, os movimentos são ensinados para que a praticante possa se manter em equilíbrio energético absoluto, o que evita mudanças de humor e doenças. Entre outros benefícios, proporciona auto confiança, serenidade, aceitação e desbloqueio de sentimentos reprimidos relacionados ao seu corpo. Deixando-se dançar, as mulheres vão se soltando, tornando-se pessoas mais sensíveis e fortes, harmoniosas e até mais bonitas. Resgatando a essência feminina, alcança-se o conhecimento intuitivo, a linguagem dos nossos cinco sentidos. A mulher que pratica Dança do Ventre tem consciência de seu próprio corpo. Alcança um auto conhecimento que desperta o amor próprio, fazendo-a perceber a beleza de existir, onde a forma física não é aquela ditada pela sociedade, e sim a sua própria forma seja ela qual for.
A dança é a celebração da vida, seu ritmo representa a escala pela qual se realiza e completa a libertação.
A Dança do Ventre Terapêutica tem como objetivo principal proporcionar o renascimento da mulher como ser único, consciente de sua importância e de seu espaço no mundo.

Texto de Amani Suhair
Professora, coreógrafa e bailarina